Em Raça e história¹, Claude Lévi-Strauss afirmou que a interpretação e a visão da diversidade variam de cultura para cultura. Para ilustrar essa discussão, ele usou metáforas, comparando as culturas com os trens, para falar do etnocentrismo, e o andar do cavalo no jogo de xadrez com o desenvolvimento das culturas.
Imagine que cada cultura é um trem e nós somos os passageiros. Nós olhamos o mundo a partir do nosso trem.
Mas os trens seguem em direções opostas, em diversas velocidades. Um viajante verá de modo diferente um trem que vai em sentido contrário, um trem que ultrapassa o seu ou outro que segue em uma outra direção. E qual trem podemos observar melhor a partir de nosso trem? Aquele que segue na mesma direção que o nosso e na mesma velocidade, ou seja, de forma paralela.
Se cada cultura é um trem, sabemos que as culturas não caminham todas na mesma direção, nem na mesma velocidade. Umas caminham mais rápido, outras caminham em direções quase opostas. As culturas possuem maneiras diferentes de observar o mundo. Cada uma tem o seu caminho, a sua direção e a sua velocidade. Se uma cultura nos parece parada, isso ocorre porque não conseguimos compreender o sentido do seu desenvolvimento.
É aquela que caminha paralela à nossa que nos permite a melhor observação e que nos fornece a autoidentificação. Mas quem é que pode dizer qual é a melhor direção? O caminho mais avançado? Será que o que parece parado para nós está realmente parado? Como saber?
Na verdade, com isso Claude Lévi-Strauss quis dizer que é muito difícil para alguém de uma determinada cultura avaliar alguém de outra cultura. Pois, já que a minha cultura é como um trem, muitas vezes não consigo enxergar e compreender o que se passa nos outros trens (nas outras culturas). Isso ocorre porque as culturas não carregam em si as mesmas preocupações nem os mesmos objetivos. É mais fácil entender a cultura que mais se parece com a nossa, ou seja, aquela que partilha dos mesmos interesses e segue na mesma direção. Mas, como as culturas são diferentes, se muitas vezes não conseguimos compreender uma delas, isso não ocorre porque ela está parada, ou errada, e sim, porque a direção que ela toma muitas vezes não faz sentido segundo a nossa lógica de raciocínio, a lógica de nossa cultura (trem).
Lévi-Strauss escreveu, ainda, que as culturas se desenvolvem como anda o cavalo no jogo de xadrez. No jogo de xadrez, cada peça caminha de uma maneira: a torre em linha reta, o bispo na diagonal e o cavalo em L, ou seja, aos saltos². Logo, se as culturas andam em L, ou aos saltos, elas não andam todas em linha reta, nem seguem todas a mesma direção. Cada uma segue um sentido e uma linha de raciocínio que lhe é própria. É equivocado considerar errada e pouco evoluída a cultura que segue uma direção diferente da nossa, como se todas devessem seguir a mesma direção, como se todas devessem andar da mesma forma. Cada cultura tem seus interesses próprios e, assim, um ritmo, uma velocidade e uma direção de desenvolvimento que são seus. Não andam, ou se desenvolvem, em linha reta.
O que é mais importante? Para um pigmeu³, mais importante do que saber quem descobriu o Brasil, ou quais são os tipos de clima do mundo, é saber quais plantas são comestíveis e quais são venenosas, quais podem ser usadas como remédio e quais não podem. Para um brasileiro que almeja se tornar advogado, mais importante é adquirir os conhecimentos necessários para entrar na faculdade. Conhecer quais são as plantas venenosas numa floresta pode não lhe ser de muita utilidade. Logo, o que é importante saber varia de uma cultura para outra.
¹ LÉVI-STRAUSS, Claude. Raça e história. In: Antropologia estrutural (volume 2). Tradução de Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Cosac Naify, 2013. p. 357-369.
² O cavalo, no jogo de xadrez, anda em L, ou seja, duas casas para a frente e uma para a direita ou para a esquerda, ou pode andar uma casa para a frente e duas para a direita ou para a esquerda.
³ Homem que pertence a uma etnia da África Central e que apresenta baixa estatura.
Claude Lévi-Strauss
Claude Lévi-Strauss (1908–2009) foi um dos mais importantes antropólogos do século XX. Ainda jovem, em 1934, veio ao Brasil e ajudou a fundar a Universidade de São Paulo (USP).
Realizou pesquisas em Mato Grosso com povos indígenas como os Bororo e os Kadiwéu, entre outros. Quatro anos depois, deixou o país e desenvolveu uma das mais influentes correntes da Antropologia: o estruturalismo.
Em 1952, a pedido da UNESCO, escreveu o artigo Raça e história, no qual criticava, entre outros pontos, a ideia de raça e o etnocentrismo entre os povos.