Nesta aula, vamos:
compreender a ideia de cultura de um ponto de vista antropológico;
distinguir instinto de cultura;
reconhecer o papel da cultura e do instinto na vida dos seres humanos;
identificar as características da cultura e reconhecer conteúdos simbólicos da vida humana;
desenvolver o espírito crítico e a capacidade de observação da sociedade.
Uma característica do senso comum é a imprecisão terminológica, ou seja, a falta de preocupação em definir com clareza o significado das palavras. No cotidiano, utilizamos termos de forma ampla e, muitas vezes, sem rigor. No entanto, em ciência, é necessário tomar cuidado ao empregar conceitos, buscando defini-los com precisão. O termo “cultura”, nesse sentido, é particularmente complexo, pois possui múltiplas definições.
Nas aulas anteriores, aprendemos que uma parte essencial do desenvolvimento humano é o processo de socialização, isto é, a inserção dos indivíduos nos grupos sociais. Também vimos que, para existir plenamente, os seres humanos precisam estar em constante interação com outros indivíduos. Nesse sentido, o ser humano é um ser social — assim como diversos outros animais que vivem em grupo, como elefantes, girafas, lobos e tantos outros.
Entretanto, há algo que distingue o ser humano dos outros animais: o fato de sermos seres culturais. Ou seja, não é simplesmente o viver em grupo ou o passar pelo processo de socialização que nos diferencia, mas sim a capacidade de construir, transmitir e transformar culturas — algo que não ocorre com os outros animais.
Mas o que significa ser um ser cultural? Por que isso nos distingue dos demais animais?
Para responder a essas questões, é necessário compreender o significado do termo cultura e reconhecer que muitos dos comportamentos que consideramos “naturais” são, na verdade, aprendidos. Muitas vezes, internalizamos hábitos e valores de tal forma que eles passam a parecer naturais. Contudo, do ponto de vista sociológico, é fundamental perceber que quase nada no comportamento humano é puramente natural. O que há de natural no ser humano é justamente sua capacidade de criar diferentes formas de vida, isto é, sua capacidade de produzir cultura.
A palavra “cultura” tem origem no latim cultura, que, até o século XIII, significava o cuidado com o campo. Posteriormente, passou a designar a ação de cultivar a terra. Já no século XVIII, passou a indicar o desenvolvimento ou aperfeiçoamento de algo (CUCHE, Denys. A noção de cultura nas ciências sociais, 2002).
Assim, o termo cultura pode assumir diferentes significados:
Cultura como conhecimento diferenciado: no senso comum, muitas vezes associamos cultura ao nível de instrução. Por isso, dizemos que alguém “tem cultura” quando leu muitos livros ou possui amplo conhecimento.
Cultura como cultivo: sentido ligado à origem da palavra na agricultura, como em “cultura de fungos” ou “cultivo agrícola”.
Cultura como manifestação artística: refere-se a produções como teatro, cinema e música.
Cultura como hábitos e costumes: diz respeito às práticas, valores e comportamentos aprendidos pelos indivíduos em sociedade.
Apesar dessas variações, podemos afirmar que, para a Sociologia e a Antropologia, cultura refere-se a tudo aquilo que o ser humano vivencia, produz e transmite por meio da linguagem. Trata-se de um sistema de símbolos que orienta o modo de pensar, agir e sentir dos indivíduos.
Para compreender melhor o conceito de cultura, é importante analisá-lo em relação ao instinto. Podemos tomar como exemplo os lobos. Sabemos que vivem em grupo, possuem hierarquia e organização social. No entanto, apesar disso, não possuem cultura.
Isso ocorre porque seu comportamento é determinado biologicamente. Um grupo de lobos — independentemente de viver nas Montanhas Rochosas ou na Sibéria — se organizará e agirá da mesma forma. Isso significa que não há, entre eles, uma tradição construída por escolhas conscientes.
Os animais seguem padrões de comportamento que são:
geneticamente transmitidos
relativamente fixos
pouco sujeitos a transformação
Não há cultura entre os lobos, pois não há tradição viva, elaborada de geração para geração, que permita tornar única e singular uma dada sociedade. Uma tradição viva nada mais é do que um conjunto de escolhas. Ter tradição não significa só viver determinadas regras, pois os animais vivem regras, mas viver conscientemente as regras. Sob determinadas circunstâncias, os animais vão sempre agir e reagir da mesma forma. Um grupo de lobos só agirá de forma diferente em relação a outros grupos se um elemento externo ao grupo influenciá-lo; caso isso não ocorra, agirá sempre da mesma forma. Se eles mudam suas regras, fazem isso por mudanças no meio.
Com o ser humano ocorre algo diferente. Cada grupo humano está inserido em uma tradição cultural própria, construída ao longo do tempo.
Essa tradição envolve escolhas, valores e significados que tornam cada sociedade única. Além disso, o ser humano projeta seus valores nos objetos que produz, deixando marcas de sua cultura nas construções, nas ferramentas e nas práticas sociais.
Outra diferença fundamental é que o ser humano não apenas se adapta à natureza, mas interage com ela e a transforma. Enquanto os animais se adaptam ao meio ou morrem, os seres humanos modificam o ambiente para garantir sua sobrevivência.
Muitas espécies animais foram extintas porque ocorreram mudanças na natureza (resultantes ou não da ação do ser humano sobre a natureza) e essas espécies não conseguiram se adaptar. Com o ser humano isso não acontece; nós não só nos adaptamos à natureza como também, principalmente, interagimos com ela, transformando-a.
Um animal pode ser criado em outro ambiente e não vai deixar de ser um animal e de adquirir as características de sua espécie. Por exemplo: o gato criado por cachorros não latirá. Mas o mesmo não acontece com o ser humano: transferido para outro ambiente, ele buscará adaptar-se, transformando o meio que o cerca, criando objetos e símbolos e se transformando também nesse processo.
Assim, o ser humano, por meio da cultura, não é só um animal que inventa objetos, mas é capaz de pensar o próprio pensamento, ou seja, ele inventa a si mesmo como ser humano.
Ao contrário dos animais, que seguem padrões relativamente fixos, os seres humanos desenvolvem múltiplas formas de viver. Por isso, não existe uma única maneira de ser humano.
Um animal, à medida que cresce, comporta-se cada vez mais como um membro de sua espécie. Já o ser humano não se torna apenas “mais humano”, mas sim membro de uma cultura específica.
Assim, ele se torna brasileiro, chinês, árabe, alemão, entre outros. Isso demonstra que a humanidade é marcada pela diversidade cultural.
O comportamento humano é orientado principalmente por símbolos, que variam de uma cultura para outra. Por isso, podemos afirmar que o ser humano é mais guiado pela cultura do que pelos instintos.
Embora todos possuam necessidades biológicas semelhantes — como comer, dormir e beber — a forma de satisfazê-las varia culturalmente. Exemplo: a alimentação
Se fôssemos guiados apenas pelo instinto, todos nos alimentaríamos da mesma maneira, como ocorre com os animais. No entanto, isso não acontece.
Os diferentes grupos humanos possuem hábitos alimentares distintos. Alimentos considerados comuns em uma cultura podem ser rejeitados em outra. Isso mostra que a alimentação não é apenas uma necessidade biológica, mas também uma prática cultural.
Mesmo quando os mesmos alimentos estão disponíveis, diferentes sociedades fazem escolhas distintas. Isso evidencia que o comportamento humano não é determinado apenas pelo ambiente, mas também pela cultura.
Isso significa que o ser humano não possui instintos?
Os seres humanos possuem instintos, mas eles não determinam completamente o comportamento. O ser humano é resultado do meio social em que foi socializado. Se o ser humano fosse mesmo um ser levado predominantemente pelos seus instintos, todos nós, em uma mesma situação, agiríamos da mesma forma. Mas não é isso o que acontece, porque, apesar de o instinto ser o mesmo em todos os lugares, não somos regidos somente pelo instinto. Ao longo do processo de socialização, os instintos são controlados e moldados pela cultura.
Por exemplo, uma pessoa pode sentir vontade de rejeitar um alimento que não gosta, mas normas sociais — como educação e respeito — fazem com que ela controle esse impulso.
Assim, o comportamento humano é resultado da interação entre biologia e cultura:
só o ser humano produz cultura: o que diferencia o ser humano dos outros animais é o fato de que ele é o único ser que possui cultura;
só o ser humano acumula experiências e as transmite de geração para geração, formando uma herança cultural: os primatas, como sabemos, são os seres que mais se parecem com o ser humano. Entretanto, ao contrário de nós, que acumulamos e transmitimos nossas experiências para as sucessivas gerações, os primatas não fazem isso. Eles habitam as florestas e vivem sempre da mesma forma. O ser humano, por exemplo, não vive mais em cavernas. Ano a ano, de geração a geração, vamos acumulando experiências e saberes a respeito da natureza. Algo que não acontece com os outros animais. Os animais mudam o seu comportamento quando há uma mudança no meio físico, mas não porque resolvem agir de forma diferente;
só o ser humano renova e transforma seu comportamento: ao contrário dos outros animais, cujo comportamento se modifica para se adaptar a mudanças do meio físico, o ser humano está sempre renovando e transformando seus comportamentos, independentemente do meio físico no qual habita. O meio físico pode provocar certas mudanças no comportamento dos seres humanos, mas isso não é algo que determina a nossa maneira de agir. É o contato com outros seres humanos e outras culturas que provoca a renovação e a transformação nos hábitos, costumes e modos de pensar e de agir dos seres humanos. Somos capazes de partilhar e transmitir a experiência e temos a habilidade de acumular nossas experiências, enquanto os outros animais não. E, com isso, transformamos os comportamentos anteriores;
Tudo isso é o resultado da interação com o meio físico e não só da adaptação. Ou seja, o ser humano não só reage às adversidades do meio físico, mas também o transforma e cria novas possibilidades com essa experiência, também se transformando nesse processo.
o ser humano é guiado mais pela cultura do que pelos seus instintos: isso porque, à medida que cresce, vai sendo cada vez menos levado pelos seus instintos e cada vez mais orientado pela cultura. É claro que o ser humano é um ser biológico, que depende de uma série de funções vitais: todos comem, dormem, bebem. Entretanto, a maneira de satisfazer essas diferentes funções biológicas varia de uma cultura para outra;
o processo de evolução do ser humano ocorre de forma diferente em relação ao dos outros animais: um cachorrinho recém-nascido pode ser criado por uma gata. Mas, por mais que a gata procure ensiná-lo, o cachorro não miará. Ele rosnará, latirá, mas não miará. Ou seja, nenhuma privação de associação com sua espécie fará do cachorro um gato. Isso porque o cachorro, assim como os outros animais, é movido primordialmente por seus instintos e é programado geneticamente para agir como um cachorro. Já com o ser humano é diferente. Ao nascer, ele é totalmente dependente de outros seres humanos e dificilmente conseguirá viver afastado deles. E, se um bebê nascido em uma cultura é adotado por um casal de outra cultura, ele aprenderá a língua e os hábitos do novo grupo. O ser humano, portanto, é resultado do meio em que foi socializado. Se o ser humano fosse mesmo um ser guiado predominantemente pelos seus instintos, todos nós agiríamos da mesma forma em uma mesma situação, e não é isso o que acontece.
Muitos são os autores que discutiram o tema da evolução humana e os antropólogos estão de acordo com a ideia de que não há um mesmo desenvolvimento unilinear (crença de que toda a humanidade passou, passa e passará por um mesmo processo linear de evolução, ou seja, pelas mesmas etapas).
Há o consenso de que o que existe é uma evolução multilinear. Ou seja, de que as diferentes sociedades possuem um desenvolvimento próprio e não passam todas pelas mesmas etapas.
Para o antropólogo Roberto DaMatta, nessa ideia de desenvolvimento linear há uma concepção teatral da origem do homem, segundo a qual o seu desenvolvimento se deu por etapas fixas:
a) no primeiro ato, o mundo é um lugar povoado por uma natureza hostil: animais perigosos e fenômenos naturais como vendavais, tempestades, glaciações;
b) no segundo ato, aparece o ser humano, apresentado como um ser solitário;
c) estimulado pelo mundo exterior, o ser humano usa sua inteligência e começa a aprender pela experiência. Aos poucos, cria artefatos para enfrentar a natureza e dominá-la;
d) ele vê que precisa se agrupar para lutar contra o mundo exterior;
e) ele se vê obrigado a inventar instituições para conter seus impulsos e os dos outros seres humanos: a agressividade leva ao surgimento das leis e do direito; sua sexualidade leva ao surgimento do casamento, da família etc.
Segundo DaMatta, esse teatro apresenta dois aspectos importantes:
uma visão utilitarista da cultura;
o social é um fenômeno secundário, uma simples resposta do ser humano a estímulos externos.
Quais são os problemas desse teatro?
ele fala do ser humano, quando, na verdade, ele nunca existiu dessa forma atomizada, sozinho. O que sempre existiu foram sociedades e culturas;
ao tratar do ser humano deixando de lado as culturas e as sociedades, fala-se dele com generalidade, mas há aí um problema: ao deixar de lado a cultura, deixam-se de lado as diferenças. E o ser humano só existe na diferença. Não há um ser humano sozinho;
um terceiro problema é que, ao deixar de lado as diferenças, sugere-se que o ser humano não reflete, não pensa, que ele só reage ao ambiente natural. E isso não é verdade:
a) o ser humano interage com o meio, ou seja, ele não apenas se adapta. Ele é capaz de criar, inventar, transformar;
b) o ser humano nunca existiu sozinho, pois ele precisa dos outros seres humanos para existir. Ao nascer é absolutamente frágil e só se humaniza em sociedade, ou seja, dentro de um grupo e por meio da incorporação de um sistema de símbolos que são partilhados pelo grupo e que dizem como ele deve agir.
O que mais essa visão de um único processo linear de desenvolvimento para toda a humanidade deixa de lado?
Que o ser humano sempre viveu em sociedade;
Que ele interage com o meio, não apenas se adapta;
Que ele cria diferentes respostas para os mesmos problemas.
Além disso, diferentes culturas não apenas resolvem problemas de maneiras distintas, como também criam problemas próprios, específicos de suas realidades.
Se o comportamento humano fosse guiado apenas pelo instinto, haveria uma única forma de agir. No entanto, o que observamos é uma grande diversidade de modos de vida — e essa diversidade é essencial para compreender a condição humana.
Após compreender o papel da cultura, é possível identificar algumas de suas características fundamentais. Toda cultura é:
a) simbólica: consiste em um conjunto de significados transmitidos por símbolos e linguagem. Esses significados são construídos social e historicamente, podendo variar entre culturas. Por exemplo, o coração pode representar tanto amor quanto vida e solidariedade, dependendo do contexto.
b) social: não existe cultura individual, pois ela é sempre compartilhada por um grupo. Trata-se de um sistema de significados que orienta comportamentos. O Direito, por exemplo, expressa valores coletivos e pode mudar conforme a sociedade muda, como ocorreu com a rejeição da chamada “legítima defesa da honra”.
c) dinâmica e estável: a cultura está em constante transformação, mas não muda de forma imediata. Existem padrões e normas que permanecem por certo tempo. As mudanças podem ocorrer por fatores internos ou pelo contato com outras culturas, como no caso da popularização do consumo de hambúrguer no Brasil por influência dos Estados Unidos.
d) seletiva: embora esteja sempre mudando, a cultura não incorpora tudo o que entra em contato com ela. Cada sociedade seleciona, muitas vezes de forma inconsciente, quais práticas e valores adota, frequentemente considerando seus próprios padrões como naturais.
e) determinante e determinada: a cultura, ao mesmo tempo que orienta e condiciona o comportamento dos indivíduos, também pode ser transformada por eles. Trata-se de uma construção coletiva, mas vivida de maneiras diferentes por cada pessoa. Embora exista um conjunto de símbolos partilhado, os indivíduos e grupos se relacionam com a cultura de forma singular, podendo interpretá-la e modificá-la. Por isso, mesmo dentro de uma mesma cultura, não há uniformidade total de pensamentos e comportamentos.
Pode-se resumir o que foi estudado até aqui da seguinte forma:
A cultura, mais do que a herança genética, determina o comportamento do ser humano.
O ser humano age de acordo com seus padrões culturais, ou seja, ele é um ser parcialmente movido pelos instintos. No ser humano, o papel do instinto diminui conforme ele passa pelo processo de socialização.
O ser humano depende muito mais do aprendizado do que do instinto.
Como não só se adapta ao meio, mas também interage com ele, o ser humano é capaz de viver sob os mais diversos climas e situações. Assim, ele conseguiu transformar quase toda a Terra em seu habitat.
A cultura é um processo cumulativo resultante das sucessivas gerações, ou seja, a experiência vai sendo acumulada com o passar do tempo. Mas isso não quer dizer que a cultura não seja passível de mudança.